Eu quero essa pessoa — ou quero que ela me escolha?
Quando o desejo e a necessidade de ser escolhido se confundem
Às vezes, o que dói em uma relação não é exatamente perder alguém.
É não ter sido escolhido.
É perceber que o outro não ficou.
Que não insistiu.
Que não voltou.
Que talvez tenha escolhido outra pessoa.
E então surge uma pergunta silenciosa, muitas vezes mais dolorosa do que o próprio término:
“O que faltou em mim?”
Nem sempre sentimos falta apenas da pessoa. Às vezes, sentimos falta daquilo que imaginávamos ser quando éramos desejados por ela.
“Eu só queria que ele percebesse o meu valor”
Há relações que terminam, mas continuam ocupando muito espaço.
Você sabe que aquela pessoa talvez não fosse tão boa para você.
Lembra dos desencontros.
Das frustrações.
Das coisas que não funcionavam.
Ainda assim, alguma coisa permanece presa ali.
Talvez você imagine o momento em que ela finalmente percebe o que perdeu.
Talvez queira que volte, mesmo sem saber se gostaria realmente de reconstruir aquela relação.
Porque, em certos momentos, o retorno do outro parece poder reparar algo:
“Se ele voltar, então eu não fui descartável.”
“Se ela se arrepender, então eu tinha valor.”
“Se me escolher novamente, talvez isso prove que eu era suficiente.”
Sem perceber, o relacionamento deixa de ser apenas uma relação com alguém e passa a carregar uma pergunta sobre o seu próprio valor.
E quando finalmente o outro corresponde?
Há também situações aparentemente paradoxais.
Enquanto o outro é distante, você pensa nele.
Deseja.
Fantasia.
Espera uma mensagem.
Procura sinais.
Mas, quando ele se aproxima, alguma coisa muda.
O interesse diminui.
A dúvida aparece.
Você começa a perceber defeitos que antes não pareciam importantes.
Talvez pense:
“Será que eu realmente gosto dele?”
E então o movimento se repete.
Quando não é escolhido, sofre.
Quando é escolhido, recua.
Isso não significa necessariamente que você “não sabe o que quer” ou que “sabota tudo”.
Talvez exista algo mais delicado acontecendo.
Talvez ser desejado produza uma coisa.
E desejar alguém produza outra.
Ser escolhido pode parecer uma resposta
Desde muito cedo, aprendemos algo sobre nós mesmos através do olhar dos outros.
Ser visto.
Ser lembrado.
Ser elogiado.
Ser preferido.
Ser deixado de lado.
Ser comparado.
Ser escolhido.
Algumas dessas experiências deixam marcas.
E, sem perceber, podemos passar a vida tentando responder novamente a perguntas antigas:
“Eu sou importante?”
“Sou alguém por quem vale a pena ficar?”
“O que preciso fazer para que não me abandonem?”
“Por que escolheram o outro e não a mim?”
Um relacionamento atual pode acabar tocando em algo que começou muito antes dele.
Por isso certas rejeições parecem grandes demais.
Não doem apenas pelo que aconteceu agora.
Elas encontram outras feridas pelo caminho.
Às vezes, não queremos apenas a pessoa
Queremos aquilo que imaginamos que a escolha dela diria sobre nós.
Quero que ele me escolha porque, então, talvez eu me sinta desejável.
Quero que ela volte porque, então, talvez eu deixe de me sentir descartada.
Quero que alguém fique porque não sei o que fazer com a ideia de que alguém possa ir embora.
Quero ser inesquecível porque ser esquecido parece dizer algo insuportável sobre mim.
É nesse ponto que uma pergunta pode começar a surgir:
“Eu quero estar com essa pessoa ou preciso que ela queira estar comigo?”
Não é uma pergunta fácil.
E talvez não exista uma resposta imediata.
Por que algumas histórias parecem se repetir?
Mudam os nomes.
Mudam os lugares.
Mudam as circunstâncias.
Mas alguma sensação permanece conhecida.
Você se interessa por quem não está disponível.
Espera demais de quem oferece pouco.
Perde o interesse quando alguém se aproxima.
Tenta convencer quem já decidiu partir.
Aceita menos do que gostaria para não correr o risco de ficar sozinho.
Ou vive procurando aquele encontro que finalmente será diferente de todos os outros.
Às vezes dizemos:
“Eu sempre encontro o mesmo tipo de pessoa.”
Mas talvez também seja possível perguntar:
“O que existe de meu nessas histórias que continuam se repetindo?”
Essa pergunta não serve para culpá-lo.
Serve para permitir que você deixe de ser apenas personagem daquilo que lhe acontece e comece a perceber o lugar que ocupa nessas relações.
O amor ideal e o amor possível
Há também quem passe muito tempo esperando algo extraordinário.
Uma conexão absoluta.
Uma certeza sem dúvidas.
Alguém que finalmente corresponda a tudo aquilo que foi imaginado.
E, diante disso, os encontros reais podem parecer sempre insuficientes.
Pessoas reais hesitam.
Frustram.
Têm limites.
Não dizem exatamente aquilo que gostaríamos de ouvir.
Não nos desejam o tempo inteiro.
Não conseguem preencher tudo.
Talvez exista uma diferença entre desejar uma relação possível e esperar uma relação capaz de nos proteger de qualquer falta.
Às vezes o amor ideal é tão perfeito justamente porque nunca precisa enfrentar a realidade.
“Mas por que eu faço isso?”
Essa é uma pergunta muito comum.
Às vezes buscamos uma explicação rápida:
“É baixa autoestima.”
“É dependência emocional.”
“É medo de abandono.”
“Eu gosto de sofrer.”
“Eu sou problemática.”
Essas respostas podem até nomear alguma coisa, mas também podem encerrar a questão cedo demais.
Porque duas pessoas podem viver situações aparentemente parecidas por razões completamente diferentes.
Talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Qual é o meu problema?”
Mas:
“Por que isso assume essa forma justamente para mim?”
A terapia como espaço para escutar o que se repete
Na psicoterapia, não se trata simplesmente de aprender a “escolher melhor” ou receber orientações sobre quem você deveria manter ou retirar da sua vida.
Trata-se de poder escutar aquilo que aparece nas suas escolhas, nos seus medos, nas suas expectativas e nas histórias que parecem se repetir.
Por que aquela pessoa?
Por que justamente aquela rejeição foi tão difícil?
Por que ser escolhido parece tão importante?
Por que algumas relações só parecem desejáveis enquanto permanecem impossíveis?
Por que é tão difícil ir embora de alguns lugares?
E o que acontece quando alguém realmente fica?
Talvez algumas respostas já estejam presentes na sua própria história, embora ainda não tenham sido escutadas dessa maneira.
Talvez a questão não seja apenas encontrar alguém
Talvez também seja descobrir quem você se torna quando ama.
Quem você tenta ser para não ser abandonado.
O que aceita para continuar sendo escolhido.
O que exige para ter certeza de que é amado.
De quem você foge quando alguém chega perto demais.
E, principalmente:
o que você deseja quando não precisa mais provar nada para ninguém.
Às vezes, uma análise começa justamente aí.


R. Waldemar Loureiro Campos, 3885 - Boqueirão - Sala 08
© 2025. All rights reserved.
Telefone: (41) 99761-3474
E-mail: rosangelafarmaco@gmail.com